Entre dois mundos: Eu – Pai Cleiton Memórias de um homem resiliente

Iaranda Barbosa • 10 de junho de 2022

         Lições, aprendizados memórias e resistência. Estas são algumas das inúmeras mensagens contidas no livro Entre dois mundos: Eu, de Pai Cleiton. O Babalorixá abre o baú de lembranças e nos faz entrar em uma máquina no tempo. Transitamos por espaços reais, por lembranças vividas pelo autor e nos sentimos, muitas vezes, dentro de histórias fictícias, mas que na verdade fazem parte das vivências de alguém que passou por desafios, perseguições, batalhas, vitórias e perdas antigas, recentes, superadas e outras ainda bastante doloridas.


       O livro abre possibilidades de conhecermos e ampliarmos nossa visão do mundo sobre temáticas variadas que ora se mostram conhecidas ora desconhecidas como, por exemplo, a intolerância religiosa, as lutas trabalhistas, a vulnerabilidade social, a fome, o direito à educação e as violências cotidianas que permeiam a vida daqueles cidadãos esquecidos pelo Estado e, portanto, marginalizados e excluídos das garantias constitucionais.


Apesar de se constituir um livro carregado de elementos mnemônicos, a crítica social se faz presente, pois as dificuldades para sobreviver constituem obstáculos que precisaram ser superados em cada fase da vida de Pai Cleiton. Contudo, a presença constante da fé se transformou em fortaleza para enfrentar os desafios:

 

   Algumas pessoas me perguntam se eu perdi a fé no Orixá. Eu disse que não, porque se tivesse perdido era porque nunca a tive. Não existe isso, perder ou ganhar a fé, você já nasce com a fé, eu quero dizer que na vida as escolhas da gente não são fáceis, mas isso não dá o direito de perdermos a fé em Deus, de nos afastarmos de Deus, porque somente Ele sabe de todas as coisas.


Logo, a força necessária para seguir em frente diante de tantos percalços advém de algo intangível, algo que somente se pode sentir e acreditar. A fé também se transformou em combustível para movimentar o sacerdote e para criar ferramentas e estratégias de luta contra perseguições e, portanto, abriu portas para que a voz do Babalorixá reverberasse e pudesse ser ouvida em diversos meios de comunicação a fim de enviar mensagens de paz, amor, tolerância e necessidade de união entre as pessoas, sobretudo, entre as mais desfavorecidas socialmente.


Tais atitudes espalharam sementes e fizeram surgir árvores com raízes profundas, configuradas em projetos de lei que almejam diminuir conflitos gerados pela ignorância. O propósito, portanto, é espalhar o respeito às diferenças e garantir o direito de as pessoas se expressarem sem ferir umas às outras. O autor é, portanto, um ser consciente do seu papel no mundo: 


  Mas eu conseguia enxergar que a minha missão era servir e não ser servido. Fui muito magoado por muitas pessoas naquela época, pessoas que já perdoei há muito tempo, aprendi a conviver com tudo aquilo, agarrado na minha fé, crença, na espiritualidade.


As experiências do Babalorixá nos ensinam e nos fazem refletir sobre nossa existência e nossos propósitos na Terra, nos fazem lançar um olhar diferenciado para realidades outras que se aproximam e ao mesmo tempo se afastam da nossa. 


Nostalgia e saudade. Lembranças e esperança. Sofrimento e superação. Perseguições e sonhos. Perdas e conquistas. Ancestralidade e futuro. Decepções e perdão. Solidão e companheirismo. Trabalho e diversão. Muitas palavras poderiam definir a obra de Pai Cleiton de Logun Edé, um sacerdote consciente da sua missão. Mas por questões de espaço e para aguçar ainda mais a curiosidade dos leitores, utilizo aqui o vocábulo a que me parece mais apropriado no momento: Resiliência.


Texto e correção: Iaranda Barbosa

Foto: arquivo pessoal da escritora

Edição de imagem: Dayvton Almeida


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